Amor só de mãe

The Heart is Deceitful Above All Things (idem/2004) Direção: Asia Argento Com: Asia Argento (Sarah), Jimmy Bennet (Jeremiah aos 7 anos), Dylan e Cole Sprouse (Jeremiah aos 11), Ornella Muti (avó), Peter Fonda (avô), Marilyn Manson (Jackson), Wynona Rider (psicóloga), etc.
Segundo longa-metragem da atriz, modelo, cantora e diretora italiana Asia Argento, um talento que, em meio a todos os predicados, ainda arruma tempo para ser filha do cultuado cineasta italiano Dario Argento (de "Suspiria" e "Profondo Rosso").
"The Heart is Deceitful Above All Things", filme que ainda não tem título em português, mas que, numa tradução livre, poderia se chamar "O coração é a mais traiçoeira entre todas as coisas", é o equivalente cinematográfico de um soco no estômago. Ou melhor, de uma punhalada no coração. O filme é baseado no livro homônimo de JT Leroy, autor cult norteamericano ao redor do qual suscita todo tipo de interesse e curiosidade. O rapaz teria escrito, ou começado a escrever, esse livro aos 17 anos, numa tentativa de exorcizar minimamente seus demônios da infância. E a se julgar pela adaptação para o cinema, os demônios são muitos e bem horrorosos.
Jeremiah -- o "J" das iniciais JT -- é um menino de 7 anos que é devolvido para a mãe biológica, uma prostituta de beira de estrada (Asia Argento), sob circunstâncias nebulosas. Não fica clara a razão pela qual ele deixa seus pais adotivos, mas Sarah, sua verdadeira mãe, faz questão de impor sua versão: o casal não aguentara o temperamento difícil do garoto.
De menino aparentemente bem criado para o convívio forçado com uma mãe desconhecida, completamente despirocada, sem dinheiro ou o menor trato com crianças, Jeremiah vive o início de seu calvário. Asia interpreta Sarah como se fosse uma Courtney Love ainda mais descontrolada, e a comparação intriga se lembrarmos dos problemas da viúva de Kurt Cobain para manter a guarda da filha.
Dirigido de maneira extremamente segura, "The Heart is Deceitful Above All Things" (daqui por diante,"THIDAAT"), arrasta o espectador para o submundo sem a cobertura de baunilha presente em outros filmes que se metem a investigar a sarjeta. A fotografia, as atuações e a coragem de mostrar o que se costuma esconder no cinema, esboçam um quadro assustador: a dificuldade de educar uma criança em meio a tamanha decadência e os resultados devastadores de uma infância perdida.
Se existe algum charme marginal em ver um pirralho de 7 anos tomando álcool, drogas e vagando sem destino com uma mãe junkie e fã de punk rock, esse charme sobrevive apenas na tela e, no caso de "THIDAAT", a beleza escorre pelo bueiro em poucos minutos de filme.
Sarah estabelece uma relação de cumplicidade com Jeremiah que parece uma demonstração torta de amor, remetendo vagamente aos percalços de mãe e filho em "Glória, a Mulher", filme que tem 2 versões, sendo a última de Sidney Lumet e com Sharon Stone no papel principal. A diferença de Sarah para as outras mães independentes, é que ela é um perigo constante para a integridade física e psicológica de sua prole. Jeremiah passa fome, apanha de desconhecidos, ganha um papai novo por noite e é sujeito a humilhações das mais variadas espécies.
Perdido após episódio traumático, o garoto vai parar na casa dos avós maternos, fanáticos religiosos que representam o outro extremo da criação desregrada e liberal da mãe. É curioso ver Peter Fonda, ele próprio um ícone da contracultura e da liberdade por sua interpretação em "Easy Rider - Sem Destino", como um patriarca disciplinador. Aliás, esse papel é praticamente o inverso de sua aparição alucinada em "Um Amor e Uma 45", quando também surge fazendo o papel de pai da protagonista.
No que diz respeito ao destino de Jeremiah, é desnecessário dizer que sua vida ainda dá muitas voltas. O drama revisita o submundo, quando o espectador médio já está aliviado em ver o menino limpo e de terninho engomado. Essa passagem de Jeremiah pelo seio de uma família extremamente cristã pode causar choque de valores em certas platéias. Confesso que, por princípio, acredito que a educação religiosa nos moldes mostrados em "THIDAAT" seja, de outra forma, tão nociva e perigosa para a mente de uma criança quanto a libertinagem de Sarah. Dito isso, me custa admitir o alívio que -- suponho -- compartilhei com tantos outros espectadores ao ver Jeremiah longe da escória. É uma questão que o filme traz à tona, propositalmente ou não, mas que promete martelar em nossas cabeças por um bom tempo.
Em termos puramente estéticos, o filme de Asia Argento mostra o lado vagabundo da América como o cinema poucas vezes ousou revelar. A vida do white trash no sul norteamericano é escancarada sem a direção de arte polida de um "Monster", filme que, curiosamente, também apresentava uma prostituta de beira de estrada -- ou "lot lizard", como diz a gíria local. Espeluncas de strip tease, botecos de quinta classe, trailers, caminhoneiros, "Jesus freaks" e outros símbolos dessa América decadente saem debaixo do tapete para incomodar os olhos acostumados ao submundo padrão Hollywood. Talvez fruto do baixo orçamento ou de uma opção esperta de Asia, esse aspecto rude é a falta de verniz que evita algum tipo de glamourização na vida triste, sofrida e arruinada de Jeremiah. Pontuando tudo isso, uma trilha sonora incidental do sempre competente Sonic Youth, que dá o clima ideal de pesadelo. De fato, o filme tem algum carinho com a marginália nas citações punks sempre presentes. Seja nas pontas de Lydia Lunch e Tim Armstrong (do Rancid), nas camisetas dos Pistols ou no amor de Sarah pela banda canadense Subhumans.
Ao final da exibição, impressão que fica é de ter visto um grande filme e que deve envelhecer muito bem. Gosto amargo permanece forte durante dias e coloca "THIDAAT" como um par interessante para a obra-prima "Nó na Garganta", de Neil Jordan, sobre criança que sofre, sofre, sofre com o amor materno. Ou a falta dele. Desde já um dos melhores do ano.
 Amor, estranho amor: Jeremiah e Sarah às voltas com os papéis de filho e mãe
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ENCONTRANDO TJ LEROY
"The Heart is Deceitful Above All Things" foi exibido como parte da estratégia de lançamento do livro "Sarah", de JT Leroy, no Brasil. O autor foi anunciado para rápido bate-papo após a sessão e foi estranha a curiosidade para ver protagonista de tão triste infância em carne e osso. Pois JT surgiu escondido atrás de um visual dark anos 80, com óculos escuros enormes, chapéu preto e uma peruca loura vagabunda. Um tipo andrógino à la Boy George.
O escritor fez grande esforço para erguer a cabeça e encarar a platéia. Tremia visivelmente e gaguejava com um fiapo de voz, totalmente feminina. A seu pedido, o bate-papo foi interrompido mais cedo. Ter visto ser humano tão traumatizado causou o mesmo tipo de mal estar que, de resto, o próprio filme de Asia Argento já tinha se incumbido de produzir.
Escrito por Mr Eddy às 00h08
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